21 de janeiro de 2016

Tênis X Frescobol - Rubem Alves

Ano passado perdemos um grande autor. Autor que abordava temas da vida de maneira poética, metafórica, simbólica... Ele me foi apresentado no final da faculdade e desde então me acompanha com suas simples e profundas metáforas da vida. 

O tema relacionamento amoroso é um tema que desperta meu interesse e que diariamente está presente em meu consultório. Hoje me recordei de uma crônica belíssima que Rubem Alves fez sobre o casamento: há dois times de casamento o do tipo tênis e do tipo frescobol. Tão bela que merece ser compartilhada e refletida.

TÊNIS X FRESCOBOL
RUBEM ALVES

Depois de muito meditar sobre o assunto concluí que os casamentos são de dois tipos: há os casamentos do tipo tênis e há os casamentos do tipo frescobol. Os casamentos do tipo tênis são uma fonte de raiva e ressentimentos e terminam sempre mal. Os casamentos do tipo frescobol são uma fonte de alegria e têm a chance de ter vida longa.
Explico-me. Para começar, uma afirmação de Nietzsche, com a qual concordo inteiramente. Dizia ele:
O tênis é um jogo feroz. O seu objetivo é derrotar o adversário. E a sua derrota se revela no seu erro: o outro foi incapaz de devolver a bola. Joga-se tênis para fazer o outro errar. O bom jogador é aquele que tem a exata noção do ponto fraco do seu adversário, e é justamente para aí que ele vai dirigir a sua cortada – palavra muito sugestiva, que indica o seu objetivo sádico, que é o de cortar, interromper, derrotar. O prazer do tênis se encontra, portanto, justamente no momento em que o jogo não pode mais continuar porque o adversário foi colocado fora de jogo. Termina sempre com a alegria de um e a tristeza de outro.
O frescobol se parece muito com o tênis: dois jogadores, duas raquetes e uma bola. Só que, para o jogo ser bom, é preciso que nenhum dos dois perca. Se a bola veio meio torta, a gente sabe que não foi de propósito e faz o maior esforço do mundo para devolvê-la gostosa, no lugar certo, para que o outro possa pegá-la. Não existe adversário porque não há ninguém a ser derrotado. Aqui ou os dois ganham ou ninguém ganha. E ninguém fica feliz quando o outro erra – pois o que se deseja é que ninguém erre. O erro de um, no frescobol, é como ejaculação precoce: um acidente lamentável que não deveria ter acontecido, pois o gostoso mesmo é aquele ir e vir, ir e vir, ir e vir... E o que errou pede desculpas, e o que provocou o erro se sente culpado. Mas não tem importância: começa-se de novo este delicioso jogo em que ninguém marca pontos...
A bola: são as nossas fantasias, irrealidades, sonhos sob a forma de palavras. Conversar é ficar batendo sonho pra lá, sonho pra cá...
Mas há casais que jogam com os sonhos como se jogassem tênis. Ficam à espera do momento certo para a cortada. Camus anotava no seu diário pequenos fragmentos para os livros que pretendia escrever. Um deles, que se encontra nos Primeiros cadernos, é sobre este jogo de tênis:
Ao pensar sobre a possibilidade do casamento cada um deveria se fazer a seguinte pergunta: "Você crê que seria capaz de conversar com prazer com esta pessoa até a sua velhice?". Tudo o mais no casamento é transitório, mas as relações que desafiam o tempo são aquelas construídas sobre a arte de conversar.
Xerazade sabia disso. Sabia que os casamentos baseados nos prazeres da cama são sempre decapitados pela manhã, terminam em separação, pois os prazeres do sexo se esgotam rapidamente, terminam na morte, como no filme O império dos sentidos. Por isso, quando o sexo já estava morto na cama, e o amor não mais se podia dizer através dele, ela o ressuscitava pela magia da palavra: começava uma longa conversa, conversa sem fim, que deveria durar mil e uma noites. O sultão se calava e escutava as suas palavras como se fossem música. A música dos sons ou da palavra – é a sexualidade sob a forma da eternidade: é o amor que ressuscita sempre, depois de morrer. Há os carinhos que se fazem com o corpo e há os carinhos que se fazem com as palavras. E contrariamente ao que pensam os amantes inexperientes, fazer carinho com as palavras não é ficar repetindo o tempo todo: "Eu te amo, eu te amo...". Barthes advertia: "Passada a primeira confissão, 'eu te amo' não quer dizer mais nada". É na conversa que o nosso verdadeiro corpo se mostra, não em sua nudez anatômica, mas em sua nudez poética. Recordo a sabedoria de Adélia Prado: "Erótica é a alma".
Cena: o marido, a mulher, a galeria. O primeiro tem valor e gosta de brilhar. A segunda guarda silêncio, mas, com pequenas frases secas, destrói todos os propósitos do caro esposo. Desta forma marca constantemente a sua superioridade. O outro domina-se, mas sofre uma humilhação e é assim que nasce o ódio. Exemplo: com um sorriso: "Não se faça mais estúpido do que é, meu amigo". A galeria torce e sorri pouco à vontade. Ele cora, aproxima-se dela, beija-lhe a mão suspirando: "Tens razão, minha querida". A situação está salva e o ódio vai aumentando.
Tênis é assim: recebe-se o sonho do outro para destruí-lo, arrebentá-lo, como bolha de sabão... O que se busca é ter razão e o que se ganha é o distanciamento. Aqui, quem ganha sempre perde.
Já no frescobol é diferente: o sonho do outro é um brinquedo que deve ser preservado, pois se sabe que, se é sonho, é coisa delicada, do coração. O bom ouvinte é aquele que, ao falar, abre espaços para que as bolhas de sabão do outro voem livres. Bola vai, bola vem – cresce o amor... Ninguém ganha para que os dois ganhem. E se deseja então que o outro viva sempre, eternamente, para que o jogo nunca tenha fim...

http://www.rubemalves.com.br/site/10mais_06.php

30 de abril de 2015

Fim de ciclo: Outono

Hoje é um dia muito especial em minha jornada profissional: um ciclo se encerra para um novo surgir.

Quando comecei no ICOP fiz um post compartilhando a notícia em 19 de outubro de 2013. Quantas coisas boas e transformadoras aconteceram de lá pra cá.

No início da parceria, tudo era muito novo, muito envolvente. Eu tinha energia de sobra, estava louca para começar a trabalhar; Rafa por sua vez tinha projetos sensacionais, mas não tinha tempo para investir neles. Eis que "juntou a fome com a vontade de comer" e a alquimia do nosso encontro aconteceu.

O encontro que tive com o ICOP/Rafa foi providencial. A reação de transformação foi mútua. Hoje digo com tranquilidade que não sou mais a mesma Lilian de quando entrei, vejo que o ICOP passou por uma grande transformação, cresceu muito e ganhou status de empresa. E que Rafa por sua vez, além da brilhante profissional que é, agora está se mostrando uma excelente empresária. Quanta coisa boa!

Para mim foi um privilégio ter feito parte dessa história, ter consciência de que contribuí para que a transformação ocorresse. 

Deixo o ICOP feliz, com a alma leva, com sensação de missão cumprida e com o coração alimentado. Levo comigo os novos colegas conheci e desejo que as relações permaneçam independente do lugar.

Com certeza sentirei muita falta dos bate-batos improvisados nos intervalos de atendimentos. Quanta conversa boa, com temáticas da mais variadas possíveis. Espero vocês para uma visita em meu novo espaço!

Finalizo minha despedida citando um trecho do post que comentei no início:
"É justamente no início da primavera que nossa parceria foi selada e com ela muitas sementes jogadas ao vento, em busca do terreno certo para cair e germinar. Se tais sementes serão árvore ou girassol, não dá para prever, mas as possibilidades são infinitas..." 

Hoje, nesse dia outono percebo como de fato as possibilidades foram e ainda serão infinitas. Muitas sementes de árvore e girassol germinaram e ainda muitas outras estão por vir!


ICOP, Rafa, Babi, Romano, Ligia, Paulo, Mel, Bruno, Marina, Diego,
Beijo grande e meus mais sinceros votos de sucesso sempre para todos nós!
Li

18 de fevereiro de 2015

O privilégio de uma existência é ser quem você é

O privilégio de uma existência é ser quem você é.

Da perfeição, nada pode ser feito.
Todo processo envolve alguma ruptura.
A terra deve rachar para que a vida possa brotar.
Se a semente não morre, não há planta.
O pão resulta da morte do trigo.

As oportunidades para encontrarmos poderes mais profundos em nós mesmos surgem quando a vida parece mais desafiadora.

Ao enveredar pela vida, seguindo seu próprio caminho, pássaros cagarão em você.
Não se preocupe em limpar.

Viva a partir de seu próprio centro.

Irromper é seguir seu padrão sublime, abandonar o antigo lugar, começar sua jornada de herói, seguir sua bem-aventurança. Você descarta o ontem como a cobra se livra de sua pele.

Não há segurança ao se atender à chamada para a aventura.

Negar a chamada é estagnar.
Aquilo que você não experimenta positivamente, experimentará negativamente.

Você adentra a floresta em seu ponto mais sombrio, no qual não há trilha. 
Se há trilha ou caminho, é a trilha de outra pessoa.
Você não estará em seu próprio caminho.
Se seguir o caminho alheio, não concretizará seu potencial.

 A meta da jornada do herói até a conquista da joia consiste em descobrir os níveis da psique que se abrem, se abrem, se abrem e finalmente se abrem para o mistério do seu Si-mesmo, sua consciência búdica ou o Cristo.
Essa é a jornada.

É com a descida ao abismo que resgatamos os tesouros da vida.
Onde você tropeçar, lá estará seu tesouro.
A própria caverna na qual você tem medo de entrar acaba sendo a fonte do que você procura.
A coisa terrível na caverna, tão temida, tornou-se o centro.

Se desejar tudo, os deuses lhe darão. Mas, você deve estar pronto para isso.

Um pequeno conselho dado a um jovem nativo americano na época de sua iniciação: “Quando estiver seguindo o caminho da vida, você verá um grande abismo.”
Pule.
Ele não é tão grande quanto você pensa.

 Joseph Campbell (In: Reflexões Sobre a Arte de Viver)

11 de fevereiro de 2015

Cinquenta tons - um símbolo contemporâneo

Há poucas horas da estréia no cinema do grande Best Seller "Cinquenta Tons de Cinzas, impossível não refletir sobre tamanha repercussão. Nas redes socias inúmeras declarações de contagem regressiva, compra antecipada de ingressos...

Será que o fervor que Christian Grey e Anastasia Steele provocam é apenas sexual? Não há como negar que as cenas "calientes" que a trilogia apresenta tem um fortíssimo apelo. Mas, ficar apenas na dimensão erótica me parece reduzir e limitar tamanha comoção. A trilogia Cinquenta Tons se apresenta como um símbolo contemporâneo, um convite para a reflexão sobre a intensidade e profundidade das relações num momento em que tudo é superficial e fugaz.

No âmbito da psicologia, a grande divergência entre Freud e Jung é a compreensão que têm sobre a energia psíquica. Enquanto que para Freud restringe-se à libido, Jung a amplia como energia cósmica, não no sentido místico, mas como manifestação psíquica da energia de tudo, sendo a libido uma parte de sua representação.

Diante disso, a reflexão apresentada do impacto social desse livro/filme, vai além do meramente sexual/erótico, libido. Diz respeito a uma visão mais ampla desse símbolo e às implicações que representa para os relacionamentos amorosos.

Anastasia representa muitas características, ao mesmo que inexperiente e ingenua, é forte, intrigante e perspicaz. Aos poucos seu lado doce adentra o mundo cinzento e sombrio de Christian Grey. No romance, quantas mulheres maduras e experientes sucumbiram a tal proeza.

É como se Grey representasse o inconsciente sombrio e desconhecido. Desde o primeiro contato, Ana fica magnetizada por ele e vice-versa. É esse o efeito que o inconsciente misterioso produz: fascínio. Uma vez em contato, há o desejo de conhecer, explorar mais. E aí que mora o perigo. Se o ego/consciência não é forte e estruturado o bastante, ele pode sucumbir e um confronto produtivo, pode provocar a destruição. Ao longo da estória Grey (inconsciente) e Steele (consciente) vão se confrontando, se relacionando e sofrendo uma transformação mútua.

Apesar de ser uma relação extremamente intensa, é cautelosa. Há regras, contrato, limites que não podem e nem devem ser ultrapassados. As exigências nada convencionais de Grey exigem revisão e negociação. E é assim que o ego deve se "comportar" ao se confrontar com o inconsciente: deve ser atento aos seus limites, ser cauteloso e não impositivo. Sendo assim, deve ter quase uma postura de reverência para que aos poucos o desconhecido vá se mostrando. É desta forma que Ana age, com uma postura de reverência ao mesmo tempo em que está atenta às suas limitações. Aos poucos vai entrando na "sombra"  de Grey na busca por trazê-la para luz. Em alguns momentos, ao invés de Ana trazê-la à luz, caminha para o lado obscuro sucumbindo ao desejo. Christian é quase como uma pedra presa ao seu corpo que a leva cada vez mais para o fundo. E esse é o grande perigo: mergulhar tão profundamente, ao ponto de se perder, se indiscriminar e se tornar um dos cinquenta tons.

O que Ana vê em Christian são características dela, ainda inconscientes, que são projetadas na figura tão forte e poderosa que ele representa. O mergulho intenso ao inconsciente "Grey" traz a oportunidade de Ana reconhecer em si potencialidades inimagináveis. A finalidade do encontro é ampliar a consciência. Com Christian ocorre o mesmo: ele é convidado a construir um padrão de relacionamento totalmente novo, que quebra suas próprias regras e o expõe ao "contato" (ligação, objetos que se tocam). Ana representa a materialização de todos os seus traumas e medos, os quais inevitavelmente acaba por confrontar como preço de tê-la para si. Quantos desafios que essa relação representa...

Portanto, restringir Cinquenta Tons de Cinza ao sexual é limitar a reflexão mais profunda que esse romance pode proporcionar. Fantasias, fetiches não convencionais podem representar muito mais do que meros jogos eróticos. Podem trazem à tona desafios "desconfortáveis", mas que podem ser libertadores, no sentido da autopercepção que traz. Qual o limite? Até onde é possível ir? Traz também a dimensão do perigo de se perder na intensidade da relação.

Assim encerro essa reflexão, deixando a dica: que tal olhar para além do aparente e visível buscando uma finalidade maior? O que os relacionamentos amorosos, afetivos, sexuais têm a dizer? Quantas pessoas saem destruídas e dilaceradas de relações intensas e profundas porque não tinham consciência de seus limites? Quantos relacionamentos foram desperdiçados por mágoas e ressentimentos e não tiveram a chance de serem resignificados para proporcionar amadurecimento e ampliação da consciência?... Como podem ver, a provocação sexual que o livro provoca é apenas uma parte do potencial que ele encerra e por isso é um símbolo.

Agora chega de blablabla e bora ver o filme né?! rsrsrsrs
https://www.youtube.com/watch?v=DEwIt4amgq4

Um abraço e boas reflexões,
Lilian Loureiro

26 de janeiro de 2015

A Pipoca - Rubem Alves

A culinária me fascina. De vez em quando eu até me atrevo a cozinhar. Mas o fato é que sou mais competente com as palavras do que com as panelas. Por isso tenho mais escrito sobre comidas que cozinhado. Dedico-me a algo que poderia ter o nome de “culinária literária. Já escrevi sobre as mais variadas entidades do mundo da cozinha: cebolas, ora-pro-nóbis, picadinho de carne com tomate feijão e arroz, bacalhoada, suflês, sopas, churrascos.

Cheguei mesmo a dedicar metade de um livro poético-filosófico a uma meditação sobre o filme A Festa de Babette, que é uma celebração da comida como ritual de feitiçaria. Sabedor das minhas limitações e competências, nunca escrevi como chef. Escrevi como filósofo, poeta, psicanalista e teólogo – até porque a culinária estimula todas essas funções do pensamento.
  
As comidas, para mim, são entidades oníricas. Provocam a minha capacidade de sonhar. Nunca imaginei, entretanto, que chegaria um dia em que a pipoca iria me fazer sonhar. Pois foi precisamente isso que aconteceu. A pipoca, milho mirrado, grãos redondos e duros, me pareceu uma simples molecagem, brincadeira deliciosa, sem dimensões metafísicas ou psicanalíticas. Entretanto, dias atrás, conversando com uma paciente, ela mencionou a pipoca. E algo inesperado na minha mente aconteceu. Minhas idéias começaram a estourar como pipoca. Percebi, então, a relação metafórica entre a pipoca e o ato de pensar. Um bom pensamento nasce como uma pipoca que estoura, de forma inesperada e imprevisível. A pipoca se revelou a mim, então, como um extraordinário objeto poético. Poético porque, ao pensar nelas, as pipocas, meu pensamento se pôs a dar estouros e pulos como aqueles das pipocas dentro de uma panela. Lembrei-me do sentido religioso da pipoca.
   
A pipoca tem sentido religioso? Pois tem. Para os cristãos, religiosos são o pão e o vinho, que simbolizam o corpo e o sangue de Cristo, a mistura de vida e alegria (porque vida, só vida, sem alegria, não é vida...). Pão e vinho devem ser bebidos juntos. Vida e alegria devem existir juntas. Lembrei-me, então, de lição que aprendi com a Mãe Stella, sábia poderosa do Candomblé baiano: que a pipoca é a comida sagrada do Candomblé...
   
A pipoca é um milho mirrado, subdesenvolvido. Fosse eu agricultor ignorante, e se no meio dos meus milhos graúdos aparecessem aquelas espigas nanicas, eu ficaria bravo e trataria de me livrar delas. Pois o fato é que, sob o ponto de vista de tamanho, os milhos da pipoca não podem competir com os milhos normais. Não sei como isso aconteceu, mas o fato é que houve alguém que teve a ideia de debulhar as espigas e colocá-las numa panela sobre o fogo, esperando que assim os grãos amolecessem e pudessem ser comidos. Havendo fracassado a experiência com água, tentou a gordura. O que aconteceu, ninguém jamais poderia ter imaginado. Repentinamente os grãos começaram a estourar, saltavam da panela com uma enorme barulheira. Mas o extraordinário era o que acontecia com eles: os grãos duros quebra-dentes se transformavam em flores brancas e macias que até as crianças podiam comer. O estouro das pipocas se transformou, então, de uma simples operação culinária, em uma festa, brincadeira, molecagem, para os risos de todos, especialmente as crianças. É muito divertido ver o estouro das pipocas!
   
E o que é que isso tem a ver com o Candomblé? É que a transformação do milho duro em pipoca macia é símbolo da grande transformação porque devem passar os homens para que eles venham a ser o que devem ser. O milho da pipoca não é o que deve ser. Ele deve ser aquilo que acontece depois do estouro. O milho da pipoca somos nós: duros, quebra-dentes, impróprios para comer, pelo poder do fogo podemos, repentinamente, nos transformar em outra coisa – voltar a ser crianças!
   
Mas a transformação só acontece pelo poder do fogo. Milho de pipoca que não passa pelo fogo continua a ser milho de pipoca, para sempre.  Assim acontece com a gente. As grandes transformações acontecem quando passamos pelo fogo. Quem não passa pelo fogo fica do mesmo jeito, a vida inteira. São pessoas de uma mesmice e dureza assombrosa. Só que elas não percebem. Acham que o seu jeito de ser é o melhor jeito de ser. Mas, de repente, vem o fogo. O fogo é quando a vida nos lança numa situação que nunca imaginamos. Dor. Pode ser fogo de fora: perder um amor, perder um filho, ficar doente, perder um emprego, ficar pobre. Pode ser fogo de dentro. Pânico, medo, ansiedade, depressão – sofrimentos cujas causas ignoramos. Há sempre o recurso aos remédios. Apagar o fogo. Sem fogo o sofrimento diminui. E com isso a possibilidade da grande transformação.
   
Imagino que a pobre pipoca, fechada dentro da panela, lá dentro ficando cada vez mais quente, pense que sua hora chegou: vai morrer. De dentro de sua casca dura, fechada em si mesma, ela não pode imaginar destino diferente. Não pode imaginar a transformação que está sendo preparada. A pipoca não imagina aquilo de que ela é capaz. Aí, sem aviso prévio, pelo poder do fogo, a grande transformação acontece: PUM! – e ela aparece como outra coisa, completamente diferente, que ela mesma nunca havia sonhado. É a lagarta rastejante e feia que surge do casulo como borboleta voante.
    
Na simbologia cristã o milagre do milho de pipoca está representado pela morte e ressurreição de Cristo: a ressurreição é o estouro do milho de pipoca. É preciso deixar de ser de um jeito para ser de outro. “Morre e transforma-te!” – dizia Goethe.
    
Em Minas, todo mundo sabe o que é piruá. Falando sobre os piruás com os paulistas, descobri que eles ignoram o que seja. Alguns, inclusive, acharam que era gozação minha, que piruá é palavra inexistente. Cheguei a ser forçado a me valer do Aurélio para confirmar o meu conhecimento da língua. Piruá é o milho de pipoca que se recusa a estourar. Meu amigo William, extraordinário professor pesquisador da Unicamp, especializou-se em milhos, e desvendou cientificamente o assombro do estouro da pipoca. Com certeza ele tem uma explicação científica para os piruás. Mas, no mundo da poesia, as explicações científicas não valem. Por exemplo: em Minas “piruá” é o nome que se dá às mulheres que não conseguiram casar. Minha prima, passada dos quarenta, lamentava: “Fiquei piruá”!Mas acho que o poder metafórico dos piruás é maior.  Piruá são aquelas pessoas que, por mais que o fogo esquente, se recusam a mudar. Elas acham que não pode existir coisa mais maravilhosa do que o jeito delas serem. Ignoram o dito de Jesus: “Quem preservar a sua vida perdê-la-á”!A sua presunção e o seu medo são a dura casca do milho que não estoura. O destino delas é triste. Vão ficar duras a vida inteira. Não vão se transformar na flor branca macia. Não vão dar alegria para ninguém. Terminado o estouro alegre da pipoca, no fundo da panela ficam os piruás que não servem para nada. Seu destino é o lixo.
     
Quanto às pipocas que estouraram, são adultos que voltaram a ser crianças e que sabem que a vida é uma grande brincadeira...


Rubem Alves (In: O Amor que acende a Lua)

22 de janeiro de 2015

Querer não é poder

Bom dia! Primeiro post do ano com um tema recorrente e pertinente ao início de um novo ano: quero, mas não posso ou não consigo. Atire a primeira pedra que nunca passou por isso...

2015 começou e com certeza algumas coisas não estão ocorrendo conforme o planejado... pode ser o vestibular que não passou; a promoção que não veio; o aumento de impostos que ninguém estava esperando, enfim, os exemplos são inúmeros.

Quantas coisas sonhamos, idealizamos, corremos atrás que, ou não acontecem ou quando acontecem, não é no tempo que queremos.

Fazer nossa parte, mesmo da melhor maneira possível não é garantia para coisa alguma. É simplesmente nossa parte que foi bem feita! Claro que nossas chances de bom resultado aumentam, mas... não há 100% de garantia. É doloroso constatar isso, já que é muito difícil para o ego vislumbrar sua limitação perante um todo muito maior que seu desejo e vontade. Reclamamos, lamentamos, esperneamos tanto... A tensão emocional da frustração pode até ser aliviada dessa forma, mas nenhum resultado diferente acontece com isso.

Quantas pessoas atendi, quantos momentos pessoais vivencie, em que tudo que estava ao alcance não foi apenas feito, mas "bem feito" e no final o resultado não foi o esperado. Que raiva, quanta frustração... Pode acontecer do impacto para o ego ser tão intenso, que pessoas chegam a adoecer. Atendi alguns casos de Crise de Pânico que tinha como base exatamente isso.

Ficar na posição do "ego esperneante", tal qual uma criança pequena com ataques de birra porque não conseguiu o que queria, não levará a lugar algum! Entraremos em um ciclo vicioso, a frustração será retroalimentada  e o adoecimento psíquico e físico poderão até se intensificar.

Se não aconteceu, algum aprendizado intrínseco tem, por mais doloroso que seja admitir isso. Como menciono sempre em meus posts: a visão da psicologia analítica é prospectiva: em tudo há uma finalidade maior. Ficar preso na frustração do "não aconteceu como eu queria", mina todo o potencial de aprendizado e possibilidade de novos olhares e perspectivas sobre o acontecido.

Num post antigo de 21 de abril de 2009 (Um discurso inspirador - http://lilianloureiro.blogspot.com.br/2009/04/um-discurso-inspirador.html) compartilhei o discurso de Steve Jobs como paraninfo de uma turma. O discurso é belíssimo, vale a pena assistir. Uma das partes que mais gosto e que diz respeito ao tema abordado aqui e a história dos pontos. Remete àquela brincadeira de criança de ligar os pontos para visualizar uma imagem ao final. Na vida fazemos isso o tempo todo: ligamos os pontos do que vivenciamos e assim temos uma visão mais ampla da relevância que certos acontecimentos tiveram em nossas vidas para nos tornarmos quem somos hoje.

Jobs enfatiza o passado, só podemos ligar os pontos do que já passou, não dá para ligar o que ainda vai acontecer. O que está por vir não é ponto ainda para ser ligado.

Desta forma, querer não é poder, por mais que o ego queira tanto isso. Frustrações fazem parte do processo de individuação de cada um. E a depender da forma como lidamos com ela, teremos a oportunidade de aprendizado e crescimento enormes. Elas podem nos impulsionar, nos tirar da zona de conforto e denunciar que mudanças precisam ser feitas! A promoção pode não ter vindo porque a fluência no inglês ainda não está tão boa; espernear não levará a lugar algum... Bora se matricular em um bom curso de inglês...

Sempre temos que fazer nossa parte, da melhor maneira possível. Tendo consciência de que é APENAS a nossa parte e não o todo. É como sempre digo para meus clientes e pacientes, temos que garantir nosso 50%, a vida se encarrega do resto...

Abraços,
Lilian Loureiro