10 de fevereiro de 2010

Voltei!!!

Caraca, quanto tempo que não escrevo...

Estava com saudades do meu blog, mas faltava inspiração. De setembro de 2009 pra cá muitas coisas maravilhosas aconteceram em minha vida e meu foco acabou sendo outro.

Como mencionei no meu primeiro post, fui fiel ao meu processo e não forcei. Mas hoje, lendo Rubem Alves a inspiração voltou. Compartilho um crônica dele, reflete maravillhosamente a emoção do retorno:

Inspiração
(Ostra feliz não faz pérola - p. 19)

"O livro do Eclesiastes adverte: "Um último aviso: escrever livros e mais livros não tem limite. E o muito estudo é enfado da carne..." Não obedeci. Escrevi muitos livros. É o jeito que tenho de brincar. Livros são brinquedos para o pensamento. De todos os que escrevi, acho que o que mais amo é A menina e o pássaro encantado. Escrevi para transformar uma dor em beleza. Eu ia me ausentar do Brasil por um período longo e a minha filha de quatro anos, a Raquel, estava inconsolável. As crianças têm uma sensibilidade especial. Sabem que toda ausência passageira é metáfora de uma ausência definitiva. Ela sofria e eu sofria com o sofrimento dela. Aí, de repente, veio a inspiração. Inspiração é quando a gente não sabe de onde a idéia vem. Na ciência é o contrário: é preciso explicar o caminho que se tomou para chegar à idéia. É esse caminho que tem o nome de método. Seguindo no mesmo caminho, qualquer outro cientista poderá chegar à mesma idéia. Na literatura é o contrário: o escritor não sabe de onde as idéias vêm. Portanto não se pode ensinar o caminho. Veja como Fernando Pessoa escreveu essa experiência: "Às vezes tenho idéias felizes, idéias subtamente felizes. Depois de escrever, leio... Por que escrevi isso? Onde fui buscar isso? De onde me veio isso? Isto é melhor do que eu...". A ciência é a caça de um pássaro definido de antemão que, depois de apanhado, será preso numa gaiola de palavras. Mas, a inspiração não é uma caça. A inspiração chega em momentos raros de distração. Picasso explicou o seu método: "Eu não procuro. Eu encontro...". Ou seja, a inspiração não tem método: o pássaro pousa no nosso ombro, sem que tivéssemos procurado e apenas nos espantamos de que ele seja assim tão bonito... Foi assim que me apareceu a a estória A menina e o pássaro encantado. Nela, uma menina não suportava a saudade, para impedir que seu pássaro voasse tratou de prendê-lo numa gaiola. Resultado: o pássaro encantado deixou de se encantado; perdeu as cores e esqueceu o canto. O pássaro só é encantado quando é livre. O sentido original da estória era claro: era uma estória para minha filha e para mim cujo objetivo era transformar dor em beleza. Mas aí aconteceu o inesperado: depois de publicado, os leitores passaram a ver sentidos novos que eu não havia visto: o livro começou a ser usado por terapeutas para lidar com casais em que cada um tentava engaiolar o outro. E estavam certos. Foi então que um amigo me disse: "Que linda estória você escreveu sobre Deus..." Ao que ele me disse: "Pois eu pensei que o pássaro encantado era Deus, que as religiões aprisionam em gaiolas...". Pode também ser... É impossível engaiolar o sentido. " (Rubem Alves - Ostra feliz não faz pérola)


Lilian Loureiro