11 de maio de 2009

Conflitos, será que são tão ruins assim...

INTRODUÇÃO

Quando comecei a escrever esta reflexão, muitos aspectos conflitivos do tema, por mais paradoxo que isso seja, bombardearam minha mente. Eis o que acontece quando o conflito é invocado...

Num primeiro momento, fiquei confusa, não sabia para qual direção ir. Cheguei até em pensar em desistir, por ser complicado demais...

Diversas dimensões do tema foram se apresentando, de forma misturada e bastante confusa. Passada a angustia inicial, permiti que o caos se instalasse. Dei vazão ao surto de idéias e aceitei que as diversas dimensões da questão se apresentassem... Como sempre brinco, parafraseando Elizabeth Gilbert, convidei as várias facetas do tema para tomar um café.

E foi muito bom, proveitoso. Rendeu muito mais do que imaginava. Se ficasse presa na idéia original, iria perder sacadas importantes sobre o conflito em si, como tema. A principal sacada foi exatamente o que acabei fazendo: às vezes a única saída possível diante de um conflito é assumi-lo, dar vazão, pois só assim a solução se apresenta. Os meios, nesse caso, justificaram o fim. E, agora que "a coisa" já está mais clara, ordenada, cheguei à conclusão de que a melhor forma de refletir sobre o tema é dividindo-o por partes. Na primeira parte, abordarei os aspectos interpessoais do conflito, quando ele ocorre entre diferentes indivíduos, com diferentes pontos de vista. Na segunda parte, discorrerei sobre a dimensão intrapsíquica do conflito, como o que aconteceu comigo, quando tive a idéia de escrever dessa reflexão.

Parte 1 - Conflito Interpessoal

É fato, em qualquer fase de qualquer relacionamento, seja ele de amizade, casamento, namoro, com os pais: conflitos são inevitáveis. Infalivelmente haverá momentos em que pontos de vistas, opiniões, escolhas serão divergentes e daí, o conflito será o desfecho certo.

Sempre digo aos meus pacientes, que temem discussão e conflito, para não temerem e sim enfrentarem. Afinal, é um engano muito comum associarmos discussão e conflito com briga e desentendimento. De fato, uma discussão, dependendo da forma como é conduzida pode virar uma briga feia e o conflito, em desentendimento. No entanto, isso não é uma equação fechada e pré-determinada, esse fim é uma das possibilidades, mas não a única. A chance disto acontecer será maior, quanto mais inflexível estivermos, firmes em nossa opinião, não dispostos a ouvir, ao menos, (entender e aceitar é outra história) a opinião do outro. Assim como a moeda que tem os dois lados, cara e coroa, situações de conflitos também têm.

Num dos lados, está o dono da razão e do outro, o que acha que não vale à pena discutir. Casamento perfeito, eu diria, caso permanecesse sempre assim... No entanto, o feliz para sempre nunca dura para sempre, em alguns casos... Por exemplo, quando o lado que acha que não vale a pena discutir acorda do sono profundo da acomodação e começa a questionar, o laço da união perfeita começa a se desfazer, e daí o conflito inevitável se instala.

Em casos como esse, o dono da razão fica perplexo, enlouquecido, enfurecido, culpando quem estiver na sua frente o infeliz destino. Pensado nesse lado da moeda, me parece que o que está por trás dessa dificuldade em ouvir o que o outro tem para nos falar, é receio de perder. E quando um precisa perder para o outro ganhar, há disputa pelo poder. É como se, com a manifestação do outro, nosso ponto de vista passasse a ser relativo e menos importante. Isso acontece quando colocamos na “nossa verdade”, todo nosso poder, em uma única idéia. É como se uma dada visão justificasse e ancorasse nosso ser. Daí, quando alguém rebate isso, é como se o chão no qual nosso eu está ancorado se desfizesse. Portanto, o comportamento esperado é brigar com unhas e dentes, não aceitando nada além da nossa absoluta verdade.

Rubem Alves, autor que tanto gosto e admiro tem uma crônica fantástica a esse respeito e que ilustra muito bem o que quero dizer: Tênis X Frescobol. Nesta crônica, Rubem apresenta metaforicamente dois tipos de relação baseados nesses jogos. Diferencia os jogos pela necessidade de um lado vencer, ganhar em detrimento e à custa do outro. Segundo ele, esse é o jogo de tênis, no qual um jogador ganha, se o outro falhar e perder. Há a intenção de levar o outro a falha, pois só assim a vitória estará garantida.

No caso do frescobol é outra história. Quanto mais tempo a bola, que no caso, Rubem associa às idéias, questões, temas, ficar em jogo entre ir e vir, maior será a satisfação dos jogadores e, consequentemente, a sensação de vitória em ambos estará presente. Se um jogador erra, o outro tentará retomar o jogo para manter o ir e vir. Esse é o lado saudável da relação: entre ires e vires ambos os lados são contemplados e, se um desvia, o outro o ajuda a entrar no jogo novamente, no qual, ambos ganham. Para mim, o frescobol ilustra uma forma muito dinâmica e saudável de pensar em como administrar os conflitos, aceitando suas polaridades e não entrando na oposição inerente a elas.

Parte 2 - Conflito Intrapsiquico

O modelo de jogo, proposto pelo Tênis nos permitir ampliar a reflexão e entrar na dimensão intrapsíquica do conflito. Diante da necessidade de só ganhar, temos que olhar e ver se está tudo nos conformes, não no outro, mas em nós mesmos!

Como lidar com a possibilidade de estarmos errados com nossa visão unilateral é inconcebível, portanto, no caso de uma discussão, o melhor é nem ouvir mesmo...

Diante disso, o caminho que muitas vezes se apresenta como o mais fácil, na visão de alguns, é o de fazer de conta que nada acontece. Esse caminho é ilusório, pois alimenta justamente a falsa ilusão de que está tudo nos conforme e que os problemas são os outros... E, sinceramente, para mim esse é o pior tipo de evitação de conflito: o conflito que não está fora, na nossa relação com as outros, mas o que está dentro!

Uma atitude como essa reflete justamente a evitação da verdade absoluta, mas não a nossa, que lutamos com unhas e dentes para mantê-la imaculada, mas a verdade da vida: muitas vezes, para ganhar é preciso perder! No jogo de frescobol para ser prazeroso para ambas as partes, é nosso egoismo que precisa perder! Se o jogo durou horas não é porque somos feras, "os bons", é porque a dupla deu certo. Sozinho, não dá para jogar. Esse jogo tem outro nome, chama-se squash.

Precisamos olhar para nosso narcisismo inerente do humano. Mas quando a situaçã está cômoda e confortável, porque o faríamos? Muitas vezes é somente quando uma discussão ocoorre e quando o calado retoma a voz e começa a questionar, que o inevitável acontece. Somos forçados a sair do ninho cômodo, abandonar nossa visão de donos da verdade e aceitar nossa visão parcial.

Desta forma, uma reflexão acaba sendo inevitável, seja gostando disso ou não. O que será que está acontecendo? Num primeiro momento é comum culpar o outro, alegando que algo está errado com ele, afinal que atitude é essa que nunca vi? Muitos permanecem aí, enganando a si mesmos, pois não aceitam o prório conflito: Será que estou certo mesmo? Será que a opinião do outro também não tem um pouco de verdade?

Tal reflexão, representa a oportunidade de assumir o conflito mais doloroso, que é o interno.

E, justamente quando isso acontece é que temos possibilidade de refletir porque calcamos nosso chão em uma visão tão restrita da realidade. E daí, tal como vivenciei quando comecei a escrever essa reflexão, uma enxurrada de informação poderá bombardear nossa mente. Ao ouvir a opinião do outro e aceitar a bola que ele manda, sem o medo que isso represente que ele queira ganhar sobre nós, podemos abrir portas e janelas em nossa mente, tendo a oportunidades de pensar em coisas, que outra maneira, não seriam possíveis. É enxergar possibilidades onde antes existia falsas certezas.

Se conseguirmos suportar a angustia e não cairmos na tentação de culpar os outros pelo infeliz destino que conflito externo apresentou, teremos uma oportunidade maravilhosa de amadurecermos, ao termos uma visão mais real e ampla da situação. Pois, o mais doído dessa história toda é aceitar que nosso umbigo é apenas uma parte e não o centro como imaginávamos.

E aí é que iremos perceber o quanto os conflitos são importantes e servem a propósito maior: propiciar maneiras de nos conhecermos...

Lilian Loureiro